O PASTONATUR – Conservação e valorização dos recursos agroflorestais nos espaços naturais protegidos do SUDOE é um projeto de cooperação transnacional que reúne 12 parceiros de Espanha, França e Portugal.
Nestes três países do espaço SUDOE (sudoeste europeu), a pecuária extensiva representa uma atividade de grande expressão territorial que, quando associada a práticas de gestão que respeitam o solo, a diversidade de espécies e os valores naturais, desempenha um papel fundamental na conservação das áreas protegidas e na valorização dos territórios onde se insere.
O projeto decorre num ano particularmente simbólico: as Nações Unidas declararam 2026 - Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores (YIRP), reforçando a relevância global do tema. Financiado pelo programa Interreg Sudoe, o PASTONATUR reúne produtores, associações de desenvolvimento local, representantes do sector agropecuário, universidades e entidades da administração pública.
Em Portugal, o projeto conta com a participação da ADPM – Associação de Defesa do Património de Mértola, da ACOS – Associação de Agricultores do Sul e da Universidade de Évora, através de investigadores do MED – Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento. As ações-piloto decorrem no Alentejo, em três áreas protegidas.
“O projeto PASTONATUR significa o arranque para um esforço que, em sinergia com o Centro de Competências do Pastoreio Extensivo e o sector, virá trazer ferramentas para valorizar a pecuária extensiva e o seu papel na sociedade”, explica Maria Bastidas, técnica da ADPM. “Através da prestação de serviços fundamentais que vão desde o sequestro de carbono e manutenção da biodiversidade à redução do risco de incêndio, mas também pela sua capacidade de produzir produtos de elevada e reconhecida qualidade. A pecuária extensiva diferencia os territórios e cria dinâmicas territoriais e económicas”, realça.
Um em cada três habitats protegidos na UE depende do pastoreio
Com base em evidências científicas e conhecimento prático, esta colaboração transnacional pretende demonstrar o impacto positivo da pecuária extensiva na manutenção do equilíbrio ecológico em espaços naturais protegidos. A relevância deste objetivo é reforçada por um relatório da Agência Europeia do Ambiente (EEA), divulgado a 15 de abril deste ano, sob o título “Extensive livestock systems and nature in Europe”. O documento conclui que um em cada três habitats protegidos pela legislação europeia depende de pastoreio de baixa intensidade e estima que 10 a 15% do efetivo bovino, ovino e caprino da União Europeia seria suficiente para assegurar a gestão desses habitats, desde que adequadamente distribuído.
Os mesmos dados dão conta de um declínio superior a 70% no número de explorações extensivas e mistas entre 2010 e 2020, o que torna mais urgente a valorização desta atividade.
Uma resposta transnacional a desafios comuns
Perante desafios partilhados pelos três países, tais como o abandono rural, as alterações climáticas e a degradação dos sistemas naturais, o compromisso dos parceiros é desenvolver uma estratégia conjunta que valorize esta atividade e assegure o seu futuro.
Rosa Blanco Torres, da Fundação Andanatura, entidade coordenadora do PASTONATUR, explica que “o que há de inovador neste projeto é que posiciona o produtor pecuário extensivo como um agente-chave na gestão do território, oferecendo aos produtores novas ferramentas e modelos de negócio que garantem a sua rentabilidade e apostam na renovação geracional”.
“O nosso objetivo com esta estratégia transnacional de pecuária extensiva é consolidar, nos próximos anos, um modelo de gestão nos territórios que demonstre que este tipo de pecuária é o investimento mais inteligente para a resiliência dos nossos espaços naturais e a maior riqueza económica e social das nossas zonas rurais”, detalha.
Quatro eixos de avaliação, 16 explorações-piloto
O projeto assenta em quatro eixos de avaliação, através dos quais se pretende demonstrar que o sistema pecuário extensivo é sustentável, viável e replicável: a conservação da biodiversidade, a adaptação e resiliência às alterações climáticas - incluindo o balanço de carbono -, o desempenho económico e o impacto social.
Através de metodologias comuns de avaliação, os responsáveis por 16 explorações pecuárias, distribuídas por dez áreas protegidas dos três países, vão poder conhecer o impacto das suas explorações nestas áreas.
Estas metodologias vão permitir obter uma leitura rigorosa, comparável e integrada das práticas de gestão implementadas, reforçando a importância de considerar a relação entre solo, pastagem e gado como um sistema integrado. Em determinadas condições, sistemas de pastoreio bem geridos podem contribuir para que o carbono sequestrado no solo e na vegetação compense uma parte significativa das emissões associadas à produção pecuária.
Adicionalmente, a pecuária extensiva assegura funções que vão além da produção de alimentos. Esta dimensão multifuncional ganha expressão concreta no Parque Natural Regional de Haut-Languedoc, um dos parceiros franceses do projeto. “Desempenha um papel fundamental na preservação dos ecossistemas agropastoris e da biodiversidade dos ambientes abertos, além de prevenir e limitar o risco de incêndio. Contribui para manter as paisagens abertas, essenciais para o turismo e para a identidade regional”, detalha Marie-Julie Parayre, técnica de projetos para a agricultura e gestão do espaço nesta área protegida.
Envolvimento de todo o sector, do produtor ao consumidor
As quatro soluções transferíveis a desenvolver no PASTONATUR são:
- uma metodologia comum de avaliação dos benefícios da pecuária extensiva regenerativa, acompanhada de um catálogo de boas práticas de gestão;
- um referencial transnacional de certificação, passível de integração nos sistemas já existentes;
- experiências-piloto de comercialização através de circuitos curtos e um guia com os resultados;
- experiências de valorização dos produtos alimentares através da gastronomia e um guia com as aprendizagens.
Entre 2026 e 2027, serão realizadas seis experiências de distribuição em circuitos curtos de comercialização, envolvendo produtores e consumidores dos três países. Pretende-se que os produtos da pecuária extensiva cheguem aos menus de cerca de 30 restaurantes. O projeto disponibilizará ainda dois cursos de formação gratuitos e à distância, em espanhol, francês e português, dirigidos a produtores e a profissionais do sector.
Está igualmente a ser criada uma Rede Transnacional que reunirá cerca de 80 entidades dos territórios abrangidos – gestores de áreas protegidas, organizações do sector pecuário, centros de investigação e entidades públicas –, com o objetivo de alargar o alcance dos resultados e assegurar a sua continuidade para além do final do projeto.