Pragas emergentes: Cryptoblabes gnidiella, uma velha conhecida que decidiu aparecer… com estrondo
A deteção de C.gnidiella ocorreu em várias regiões vitivinícolas, com particular incidência no Alentejo (sub-regiões como Borba e Vidigueira), Península de Setúbal e Tejo.

Autores:
Gilberto Lopes1, Jorge Sofia2,3, Márcia Santos4, Ana Rita Varela4 & Pedro Naves4
1Syngenta C. P. Lda., Avenida D. João II, Edifício Adamastor, Torre B, N.º 9-I, 13.º Piso, Lisboa,
2INIAV, I.P. Polo de Inovação de Dois Portos/Estação Vitivinícola Nacional, Quinta da Almoinha,Dois Portos.
3CEF, Laboratório Associado TERRA, Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade de Coimbra
4UEIS-SAFSV, Av. da República, Quinta do Marquês, Oeiras

A importância das novas tecnologias na monitorização de problemas fitossanitários
A viticultura é, há gerações, uma atividade central em muitas regiões agrícolas de Portugal, com um peso inegável. Os desafios que hoje se colocam aos viticultores são cada vez mais complexos. Para além das pragas e doenças que comprometem a produtividade e a qualidade da uva, há uma crescente pressão para responder às exigências ambientais e às novas políticas da União Europeia, que apontam para uma redução significativa no uso de produtos fitofarmacêuticos. A monitorização rigorosa e a avaliação do risco fitossanitário assumem aqui um papel crucial. A tecnologia tem vindo a abrir novas possibilidades: o recurso a armadilhas digitais permite hoje uma monitorização contínua, em tempo real e com custos operacionais reduzidos. Estas soluções inteligentes facilitam a deteção precoce de pragas, otimizam a tomada de decisão e contribuem para uma gestão mais precisa e sustentável da proteção da vinha.
A experiência recente com a traça-dos-cachos, Cryptoblabes gnidiella (Figura 1), veio reforçar a importância de integrar estas práticas nos programas de proteção. O controlo de doenças como o míldio ou o oídio e de pragas como a traça-da-uva ou a cigarrinha-verde, exige cada vez mais uma abordagem baseada no conhecimento, na tecnologia e na antecipação. A transição para uma viticultura mais resiliente e amiga do ambiente não é apenas desejável, é inevitável. E começa com uma vigilância atenta, suportada por ferramentas inovadoras e uma gestão fitossanitária inteligente.

Figura 1. Adulto de Cryptoblabes gnidiella. A moeda de 1€ permite avaliar a dimensão do inseto.
O desafio inesperado de 2024
Durante a vindima de 2024, técnicos e viticultores da Península de Setúbal, de Borba, Estremoz, Vidigueira e Cartaxo, foram surpreendidos, durante o período de maturação, por danos severos nos cachos associados a ataques de traças, apesar da aplicação oportuna de tratamentos para controlo da traça-da-uva, Lobesia botrana. Esta situação suscitou diversas dúvidas quer sobre a eficácia dos produtos fitossanitários utilizados, quer sobre a possibilidade da existência de insetos resistentes ou da ocorrência de uma quarta geração da traça-da-uva. A análise dos cachos atacados revelou um padrão não atribuível à traça: ausência de perfurações nos bagos (Figura 2), teias envolvendo os cachos (Figura 3), presença de lagartas dentro das teias (Figura 4) e com forte acumulação de excrementos no seu interior (Figura 5). O ráquis apresentava-se roído (Figura 6). As lagartas, presentes em grande número e em diferentes estados de desenvolvimento, não apresentavam semelhança com as de L. botrana.

Figura 2. Bago roído, sem perfurações.

Figura 3. Bagos secos, em resultado da alimentação da larva no ráquis, envolvidos por uma teia

Figura 4. Lagarta de C. gnidiella.

Figura 5. Excrementos das lagartas de C. gnidiella.

Figura 6. Ráquis atacado.
Identificação de uma nova ameaça: Cryptoblabes gnidiella como praga emergente
Foram recolhidas amostras de cachos (com lagartas e pupas) nas vinhas onde foram detetados os danos, as quais foram posteriormente enviadas para o Instituto de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), onde através de análises morfológicas detalhadas e identificação molecular, foi confirmada a presença de Cryptoblabes gnidiella (Lepidoptera: Pyralidae). Esta é uma traça nativa do mediterrâneo, já referenciada em Portugal desde os anos 1990 noutras culturas (citrinos) e considerada uma praga secundária na vinha, aparecendo nesta como consequência de ataques de cochonilhas, de cuja melada as suas larvas se alimentariam.
A deteção de C.gnidiella ocorreu em várias regiões vitivinícolas, com particular incidência no Alentejo (sub-regiões como Borba e Vidigueira), Península de Setúbal e Tejo. Este inseto apresenta um comportamento distinto de L. botrana, com uma atividade de voo ao longo do ciclo vegetativo mais contínua e prolongada, dificultando a discriminação das diferentes gerações ao longo do ano. O inseto possui ainda inúmeros hospedeiros, para além da videira, refugiando-se nos mesmos no início do ciclo. Esta traça não possui uma verdadeira diapausa, o que significa que as larvas permanecem na vinha, alimentando-se dos restos dos bagos que ficam agarrados aos cachos secos. Assim, a vindima mecânica é uma vantagem pra a traça, porque deixa estes cachos para trás. Naturalmente, invernos frios eliminariam muitas lagartas, mas os invernos naquelas regiões têm sido suaves. A presença silenciosa, mas destrutiva e sentida de C. gnidiella, evidenciou a necessidade de uma abordagem mais abrangente de monitorização específica para esta praga emergente.
Expansão da rede de monitorização em 2025
Perante os resultados obtidos nos anos anteriores, em 2025 foi ampliada a rede de armadilhas digitais iscadas com feromona sexual específica para C. gnidiella, abrangendo também as regiões do Douro e Bairrada e densificando a cobertura nas regiões da Península de Setúbal e Alentejo. Com os dados que temos presentemente, é possível confirmar a presença desta traça em todas as regiões monitorizadas, com capturas particularmente elevadas no Alentejo, mais especificamente nas sub-regiões de Borba e Vidigueira, onde se verificaram capturas desde meados de abril.

Gráfico 1 - Registo das capturas de C. gnidiella em armadilha digital na Orada - Borba, desde inico de março até 3 de julho 2025
Ao fornecer dados fiáveis que suportam decisões mais sustentáveis em termos de tratamentos inseticidas, esta abordagem visa integrar de forma coordenada o controlo de C. gnidiella com as práticas já consolidadas para a traça-da-uva (L. botrana). A análise dos dados recolhidos permitirá caracterizar a distribuição e os padrões de voo desta traça, por região, avaliando também a sua real importância como praga. Caso se comprove a sua relevância fitossanitária será necessário adaptar os programas de proteção correntes de forma a garantir um controlo eficiente de ambas as espécies.
Monitorização remota como ferramenta para o controlo de pragas
A monitorização e a estimativa de risco, com recurso a armadilhas digitais inteligentes (Figura 7), poderão constituir ferramentas fundamentais no controlo de pragas, reforçando os pilares da proteção integrada. Equipadas com sensores e sistemas de comunicação remota, estas armadilhas permitem uma recolha contínua e automatizada de dados sobre a presença e a dinâmica populacional das pragas, como Cryptoblabes gnidiella, permitindo uma deteção ainda mais precoce e a tomada de decisão fundamentada. É notória a capacidade destas armadilhas para diferenciar algumas espécies com base em características visuais e/ou comportamentais. O recurso a inteligência artificial reduz significativamente os riscos de diagnósticos errados, de intervenções ineficazes, o tempo despendido e os custos de mão-de-obra. A informação em tempo real permite ajustar com precisão o momento de intervenção, indicando e otimizando a oportunidade e eficácia dos tratamentos. A objetividade das análises feitas por este equipamento é confirmada em “backoffice” por entomologistas, não só numa perspetiva de certificação dos registos, mas também para “ensinar” e aperfeiçoar o conhecimento destas “máquinas”.

Figura 7. Armadilha digital para lepidópteros.
Em resposta à falta de soluções homologadas específicas para C. gnidiella, foi solicitado e aprovado um pedido de Autorização Excecional de Emergência (n.º 2025/271, de 03/06/2025) para o uso do produto Affirm® (produto que já se encontra registado para E. ambiguella e L. botrana), por um período de 120 dias.
1 AEE pedida pela AVIPE, Associação de Viticultores do Concelho de Palmela